domingo, 31 de julho de 2011

Voltando pra casa

Acabei de chegar em casa, aliás, na minha 2a casa; já que deixei minha mãe também em casa, mas essa no RS.
Estou com o coração na mão por não poder acompanha-la durante todo o processo de tratamento do câncer....foi tudo tão difícil até agora.... momentos de tanto medo, ansiedade, dor....eu não quero estar aqui, quero voltar pra lá!
Mas tenho que estudar, estudar, estudar - agora é a hora e não tenho mais tempo a perder.
Mal chego e a solidão já está me esperando na rua, em casa, pra comer, pra dormir...como os amigos fazem falta....
Estou de coração apertado de saudade da minha mãe, de preocupação, de medo...medo.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Bandeira



Assim eu quereria o meu último poema.
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.

enfim, em casa!

Finalmente deram alta para minha mãe e já estamos em casa....quase nem acredito.
Os últimos dias no hospital foram tão difíceis que chego a ter medo de acordar desse sonho bom....
Estamos tão cansadas...especialmente porque minha mãe fez questão em vir de ônibus e acabamos pegando um pinga-pinga que aumentou a viagem em quase 2 horas...fora o fato de que o ônibus sacudia bastante e aumentou as dores na mama.....ela é muito teimosa mesmo, não havia como discutir.
Só espero que tudo continue bem.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

desejos...

extirpar essa bosta desse câncer, pra nunca mais voltar.
levar minha mãe pra Santos, e não deixá-la voltar.
parar de me abrir demais, e nunca mais chorar.
controlar esse dedo podre, e nunca mais me machucar.
deixar que o amor aconteça, e nunca mais errar.

lidar com o que a vida jogar, e nunca mais voltar.

Pensamentos sobre um Capitão....

Meu querido Capitão....queria saber como ele está...se ainda se lembra de uma mochileira solitária e meio maluca, que vive viajando de galáxia em galáxia.....se machucando aqui, aprendendo ali, caindo de novo logo adiante....mas que nunca se esquece do Capitão, coisa impossível de acontecer....tão impossível que nunca aconteceu, nem um só dia....como estará meu Capitão?....

amanhã, quem sabe....

Amanhã "teremos" alta.
Estou confiante, arrisco até que tenho certeza.
Uma coisa é certa: ontem foi um dos piores dias da minha vida.....não que sejam poucos, muito pelo contrário, mas são com certeza inesquecíveis.......e ontem não deixou a desejar.
Outras coisas deixaram a desejar, e muito, mas essas só me deixam mais fortes - e menos boba.
Minha vida mudou completamente nessas ultimas semanas....não entendo o presente, tenho medo do futuro e o passado que se dane.


quarta-feira, 20 de julho de 2011

Pessoa ao acaso


Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe um paladar,
E se a terra fosse uma cousa para trincar
Seria mais feliz um momento...
Mas eu nem sempre quero ser feliz.
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural...
Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se,
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva...

O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
pensar como quem anda,
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica...
Assim é e assim seja...

INACREDITÁVEL....

Eu não acredito em mais nada...a alta foi cancelada pois encontraram uma dilatação incomum no ducto colédoco....mais uma vez sem previsão de alta.
Um quarto só de mulheres cheio de homens no horário de visita....não dá nem pra fazer um curativo com o mínimo de privacidade! Hoje 'a noite terei de dormir lado a lado com um pivete sem noção que não pára de me olhar, pois ele vai acompanhar a avó enquanto a mãe descansa. As cadeiras estão quase grudadas de tanta gente.....eu não aguento mais.....as pessoas não páram de falar, de andar pra lá e pra cá......deveria ser proibido entrar homens num quarto feminino onde mulheres foram submetidas 'a mastectomias, cirurgias no quadril...estou INDIGNADA!!!!!!!!!!!
E esse moleque não se toca! Não pára de olhar pra todo mundo nas camas.....
A maioria faz como a minha mãe: deita, esconde o rosto e dorme.
Mas as acompanhantes como eu não têm escolha.
Eu não to aguentando, não to aguentando mesmo.
Pelo amor de deus, alguem me ajuda....me escreve alguma coisa...me façam companhia!!!!!

enfim, respostas

Hoje ficamos sabendo de todos os detalhes da complicação da cirurgia da minha mãe: algum trauma causou um sangramento interno, que gerou um edema, que gangrenou os tecidos com maior acúmulo de sangue, que causou o descolamento do músculo do tórax, axila e costas.....só hoje fiquei sabendo que minha mãe corria sério risco de morte.
Conforme a ficha foi caindo, fui passando por uma série de descargas emocionais: choque, medo, nervosismo, irritação, raiva, choro e, agora, náusea....parece que vou vomitar tudo que vi, senti, ouvi e experienciei todos esse dias....faz tempo que não me sinto tão mal assim.
Amanhã iremos para casa, outra etapa que começa.


 

terça-feira, 19 de julho de 2011

neurastenia

Finalmente "teremos" alta do hospital amanhã de manhã!
Eu já estava ficando neurastênica....ou melhor, estou.
Não sei se rio ou se choro....tenho vontade de chorar de medo, de raiva, de revolta, de azar....vontade de rir da sorte, do tempo que passou, das dificuldades que ficaram pra trás....vontade de gritar comigo mesma, bem alto: SUA IDIOTA, ZERO 'A ESQUERDA!
Não me peçam explicações, não sei, tô confusa, cansada, exausta.

Será que existe alguma razão?: acabamos de voltar da consulta, depois de recebermos todas as indicações e contra-indicações; minha mãe se levanta e começa a erguer a cabeceira da cama do hospital com aquela manivela pesada......quando vou alertá-la, ela fica brava comigo e continua.
Será?

segunda-feira, 18 de julho de 2011

trecho de um livro

Li um trecho do livro "A Síndrome de Copérnico", que minha mãe estava lendo, e gostei muito dessa passagem:

"Eu existo. Você existe. Eles existem.
 Eu existo, eu que escrevo, e existe você que lê, talvez.
 Mas essas palavras não são meu eu. Não é a mim que você lê. Não se iluda: o meu eu é inacessível. E não digo isso para me vangloriar. É assim, é humano.
 Você me entende? Não. Você vê o meu interior? Menos ainda. Como também eu não vejo o seu, aqui, agora. Não tente. Continuaremos estranhos para sempre.
 O outro. Eu precisava me certificar. Procurei nos dicionários. E vi que, para eles, também é uma palavra problemática (....) 
  No dicionário de Armand Colin, temos um arremedo de consolo:
  Outro: 1.Sentido geral: o outro como eu que não é o eu, como correlativo do eu. 2. Fil.: em Rousseau: o outro designa o meu semelhante, isto é, qualquer ser que vive e que sofre, com o qual me identifico na experiência privilegiada da piedade. Em Hegel: o outro, dado irrecusável como existência social e histórica, é, numa relação intersubjetiva, constitutivo de toda consciência no seu próprio surgimento...
   Dado irrecusável...Hegel diz isso para se divertir.
   Não há solidão maior do que perante os outros.
   Essa solidão é cansativa. Só, só, só, eu estou só. Eu estou só. 'As vezes preciso dos outros. Para quê?
   O outro é um mistério e um paradoxo. Ele é, desde sempre, o genitor de todos os meus tormentos. Não se esconda. Na verdade, não é culpa sua. É assim. E, de qualquer modo, eu só existo através de você.
   Eis por que: o Homo sapiens não pode existir sozinho. É preciso um pai e uma mãe para nascer. Nós somos o produto de um outro. E essa dependência não nos abandona nunca. Ela está em toda parte. A linguagem, a cultura....tudo vem dos outros. Somos herdeiros constantes.
   E, no entanto, o outro continua a ser inacessível. Eu vejo o corpo do outro, mas nunca vejo seu espírito. Nunca vejo sua alma, sua interioridade. E a interpretação que eu faço do outro é necessariamente inexata, assim como a que você faz de mim.
   Enquanto o outro continuar a ser outro, seremos vítimas de uma eterna incomunicabilidade. Por mais que se tente.
   A invenção da linguagem é a mais bela confissão da nossa incapacidade de nos entendermos."
 

Vinicius ao acaso


Eu deixarei que morra
em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado.
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado.
Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face.
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada.
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite.
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa.
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço.
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos pontos silenciosos.
Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas.
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.

domingo, 17 de julho de 2011

que nada....

E o alívio passou....minha mãe agora sofre de dores terríveis na mama operada...chega a chorar e se contorcer - foram 2 noites sem dormir...até vir a santa morfina! Mesmo assim a dor continua....e a enfermeira de plantão não gosta de dar morfina! Como pode uma enfermeira que não "gosta" de dar um remédio que foi prescrito pelo médico?! Ai...como é triste vê-la sofrendo tanto....e o medo do que pode estar por vir...
Hoje os médicos disseram que usaram 1L de água para limpar o edema, retiraram todos os tecidos gangrenados (gangrenados!!!! ) e que dissecaram o músculo peitoral.....
E por aí vamos.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

ai que alívio!

Meu deus....depois de tanta angústia, finalmente conseguimos respirar aliviadas: a cirurgia de ontem foi um sucesso, o edema foi limpo, os tecidos gangrenados foram todos retirados e não havia nenhuma infecção - esse foi o grande trunfo!
Agora estamos extra cautelosas, assim como os médicos: exames de sangue contínuos, antibióticos ininterruptos e muito carinho, abraços e beijinhos - até os médicos já a abraçam, fazem cafuné, seguram na mão.
Rezo que daqui pra frente tudo fique tranquilo, suave - a serendipity.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

complicações

Para registrar no diário: minha mãe está tendo complicações da cirurgia e sera operada com urgência amanhã....nunca tive que ser tão forte e nunca tinha visto minha mãe em uma situação tão dolorida, triste e vulnerável....
Estamos muito abaladas e apreensivas com a incerteza do futuro...
As coisas não estão sendo fáceis....'as vezes, nem tudo dá tão certo - ou pelo menos não do jeito como a gente gostaria.

sábado, 9 de julho de 2011

fim

Acho que vou aposentar meu blog....cansei de ler minhas fraquezas.....mil coisas, mas nada de muito "engrandecedor"....
A verdade é que estou muito fragilizada: tudo que digo parece meio ridículo; tudo que faço parece imaturo e eu me sinto um zero 'a esquerda.
Nunca me senti tão fraca, incapaz, fazendo tudo errado.
A cirurgia  da minha mãe foi muito difícil, tudo foi maior e pior do que esperávamos: o tumor, a cirurgia, a recuperação, as emoções....tudo.
Nunca vi minha mãe tão fragilizada, insegura e enfraquecida - a vida está mudando, e muito.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

mudanças

Pois, pois....quem consegue dormir com um barulho desses?
São tantas mudanças, tantos planos em suspenso, tanto medo, tanta dor....
Estou tão assustada com a situação da minha mãe....eu deveria ter passado a noite com ela...mas achei melhor descansar, ter algum suporte eu mesma, para estar mais disposta e com mais energia para ajudá-la a ouvir as possíveis notícias desagradáveis da ecografia de hoje.....mas essa não foi a melhor escolha; agora eu vejo que estou muito sensível, carente e deveria ter ficado com ela.
Tenho tantas perguntas....será que é tão anormal assim sentir necessidade não só de suporte emocional, mas de suporte físico também? Um abraço apertado, uma carona, adormecer abraçada, se sentir aconchegada - todo mundo sente falta disso ou eu sou anormal?
Dizem que as dores "físicas" do medo, da solidão, da falta de amor, só são "curadas" através do contato físico, do abraço, do toque, da presença - palavras e intenções podem amainar a dor, mas não ajudam de fato.
E será que existem pessoas que precisam tanto disso (ou até mais) quanto das palavras?
É tão anormal assim querer ter alguém pra dividir as tristezas e alegrias, especialmente quando você nunca teve isso e está passando por uma fase difícil?
Quando eu digo "dividir" não imagino que a outra pessoa tenha de passar pela mesma dor que você - é simplesmente dividir no sentido de estar lá, de "sentir" o outro e não ter medo, não fugir.
Só que as coisas parecem se confundir, "estar lá" para outro pode não vir acompanhado do "sentir" o outro, e por aí vai.....afinal, somos seres humanos, incompletos por natureza, emocionais e racionais ao mesmo tempo....uma confusão de interpretações - esse é normalmente o resultado de qualquer "troca"; seja racional, emocional, física ou, pior ainda, a mistura desses elementos.
Hoje em dia me parece que tudo é interpretado tendo o sexo como ponto de "colisão": ou ajuda ou piora; muito, mas muito raramente mesmo, completa.
 Não sou tão boba nem tão imatura a ponto de achar que a união entre duas pessoas e o suposto suporte, presença e etc, seja a solução para todas as dificuldades da vida - mas acredito sim que pode ajudar e muito, especialmente em casos como o meu, quando a pessoa não só nunca teve, como passou a vida sendo rejeitada das mais diferentes maneiras.
Enfim, cada um tem seu ponto de vista misturado com a própria experiência de vida, e, para mim, sei que seria o maior presente, a maior benção que eu poderia receber nessa vida.
As vezes aparecem pessoas que me surpreendem, encantam, fazem sonhar com essa benção....mas a vida é tão cheia de confusões, desencontros, momentos errados.....fico impressionada com a minha habilidade em acertar os momentos errados....
Acho que vou voltar a dormir no hospital até minha mãe ter alta.... não tenho como protege-la do sofrimento nem sequer sei se consigo mesmo ajudar - mas eu, Marina e filha, posso tentar.
Pode ser uma tentativa imperfeita, insegura, até desequilibrada; mas vou tentar pois eu sei o quanto dói não ter um sentimento de proteção, por mais irreal e imperfeito que seja.
Sinto que estar presente independentemente do desconforto, dos riscos, dos medos, da confusão, da incerteza, das consequências, é o verdadeiro significado do ajudar, do simples ato de ajudar alguém que é importante, alguém que "vale a pena".
Até porque, isso é o mais importante: "valer a pena", ser e se sentir digna de um esforço, de um risco....

novidades

Meu astral não está dos melhores, minha mãe está tendo pequenas complicações e ainda não tem previsão de alta....
Ela sente muita dor, está com hematomas no seio operado, além de ter uma flebite horrível no braço direito devido 'as medicações intravenosas.
Amanhã ela irá fazer uma ecografia mamária para ver o que está acontecendo, só aí teremos alguma ideia de quando ela terá alta.
Isso que ela ainda tem mais 2 cirurgias pela frente.....
Sem mais palavras, não tenho o que dizer.
Só sei que sem o suporte e carinho do meu amigo porto-alegrense eu já haveria desmoronado....não sei o que faria sem ele neste momento....está provando ser um anjo da guarda protetor.
Muito, muito, muito obrigada :)

segunda-feira, 4 de julho de 2011

para um capitão...

Futuros Amantes

Chico Buarque

Composição: Chico Buarque
Não se afobe, não
Que nada é pra já
O amor não tem pressa
Ele pode esperar em silêncio
Num fundo de armário
Na posta-restante
Milênios, milênios
No ar
E quem sabe, então
O Rio será
Alguma cidade submersa
Os escafandristas virão
Explorar sua casa
Seu quarto, suas coisas
Sua alma, desvãos
Sábios em vão
Tentarão decifrar
O eco de antigas palavras
Fragmentos de cartas, poemas
Mentiras, retratos
Vestígios de estranha civilização
Não se afobe, não
Que nada é pra já
Amores serão sempre amáveis
Futuros amantes, quiçá
Se amarão sem saber
Com o amor que eu um dia
Deixei pra você

          

Devaneios

Fico impressionada como antigos amigos, aqueles que mesmo com a distância e as adversidades da vida sempre permanecem próximos - em alguns casos se tornam até mais próximos.
Acho que isso é que chamam de conexão: um "algo" que perdura sem esforço.
Isso é tão importante, a vida parece tão vazia e sem sentido quando não consigo estar e\ou me sentir próxima de pessoas assim.
Ontem reencontrei e me reconectei com um amigo assim....conversamos, rimos, choramos, dividimos - e hoje me sinto outra, renovada, mais contente.
Estou tão grata por ter uma pessoa assim na minha vida!

Também andei pensando e sentindo quanto o contato físico - seja ele carinhoso, atencioso, protetor, amigo, confortante, amoroso ou sensual  (ou todos eles!) - faz falta na minha vida....sinto tanta falta de abraços, carinhos, cafuné, de sentir o cheiro, a temperatura, o toque de uma outra pessoa....sinto uma enorme falta, quase como se um pedaço de mim estivesse faltando.

domingo, 3 de julho de 2011

Serendipity


"A palavra Serendipismo se origina da palavra inglesa Serendipity, criada pelo escritor britânico Horace Walpole em 1754, a partir do conto persa infantil Os três príncipes de Serendip. Esta história de Walpole conta as aventuras de três príncipes do Ceilão, actual Sri Lanka, que viviam fazendo descobertas inesperadas, cujos resultados eles não estavam procurando realmente. Graças à capacidade deles de observação e sagacidade, descobriam “acidentalmente” a solução para dilemas impensados. Esta característica tornava-os especiais e importantes, não apenas por terem um dom especial, mas por terem a mente aberta para as múltiplas possibilidades.
Serendib é o nome que os comerciantes árabes da antiguidade deram ao Sri Lanka (um entre vários nomes dados a esta ilha através de sua história, sendo que os cartógrafos gregosantigos a chamavam de Toprobane; já o atual nome do país significa Terra Resplandecente no idioma sânscrito, conforme registrado nos antigos épicos indianos Mahabharata e Ramayana; finalmente, com a chegada dos portugueses, a ilha recebeu o nome luso de Ceilão, do qual deriva a versão inglesa Ceylon)."

Serendipity é uma das minhas palavras favoritas; soa como um poema e seu significado também não deixa a desejar. 
Tô precisando me inspirar hoje.
Tá difícil....ta ficando difícil....acabaram de mudar minha mãe de quarto e, apesar do quarto ser melhor, as companhias....já tô vendo que não tô conseguindo segurar a barra por 4 dias direto...2 dias sem tomar banho...minha "fortaleza" emocional não está lá essas coisas...nem sei se já foi um dia, já não sei de mais nada.
Aliás, essa é uma certeza absoluta que aprendi esses dias: não sei de nada, essa é a única certeza que tenho.
Então, voltando 'as novas vizinhas de quarto: uma freira que teve um aneurisma cerebral e, além de ficar senil, não consegue parar de debater o braço direito (bonitinhas são as duas irmãs de sangue - e freiras tbm - que tomam conta dela com todo o carinho e atenção; a outra é uma jovem que foi operada de algum câncer e que não consegue parar de falar sobre a sua própria doença assim como a dos outros; por fim, uma outra mulher que fica atras de um biombo não sei por qual razão, ou melhor, doença.
Como a freirinha precisa de cuidados 24h, principalmente 'a noite, e o quarto é pequeno, não vou mais poder ajudar minha mãe durante a noite. Mas tudo bem, ela está bem melhor, bem melhor mesmo.
Hoje vou dormir na casa de um amigo, senão já já sou eu que vou dar entrada na ala psiquiátrica - que, aliás, fica logo ao lado....



sábado, 2 de julho de 2011

Terceiro dia...

E a luta continua.....mamis conseguiu levantar da cama e tomar banho, tá melhorando aos poucos, mas significa que tudo está indo bem.
O processo das próteses, do tratamento, retornos médicos, todas essas fases irão com certeza demorar mais de um mês (pelo que me parece, cerca de 2 a 3 meses).
Ontem 'a noite não foi fácil, muito frio, minha mãe passando mal, aquele rolo todo de se dormir numa cadeira de hospital ajudando alguém que não está bem.
Aos poucos, quanto mais claro vai ficando o horizonte desconhecido, mais e mais os planos que fizemos (ou melhor, que eu fiz) parecem que não vão se concretizar.
Parece provável que eu não possa\consiga voltar para o cursinho logo em Agosto...estou ficando muito triste por conta disso....acho que o cansaço também está batendo forte, assim como o esforço para ficar firme e forte sem desmoronar (acho que isso eu estou conseguindo, já que minha mãe verbalizou que a minha força interna e calma a ajudou muito)....só que hoje sinto que essa tal "força" está se esvaindo....mas porque assim tão rápido? Será que sou tão fraca assim?
Tive que ir no banheiro 3 vezes hoje só para poder chorar....tenho medo de ir pra casa depois da alta e ter que tomar conta da minha mãe, da casa, da comida e tudo o mais, completamente sozinha...Não sei dirigir o fusca, se ocorrer uma emergência, se for preciso comprar algo na cidade, como vou fazer? Ficar pedindo favor?
Mas eu também sei de outra coisa que está "pegando"...a única pessoa que tem nos ajudado aqui em Porto Alegre é um ex-namorado meu....ele tem sido extremamente atencioso, gentil, amigo e tem sido ótimo poder contar com ele. Ele veio visitar minha mãe hoje e foi um enorme suporte para mim. Foi também muito bom sentir o quão maravilhoso deve ser ter um companheiro com quem dividir as alegrias e tristezas, alguém que te respeita e quer bem....e me bateu aquela tristeza..."aquela" tristeza profunda da solidão, minha eterna companheira.
Ele foi embora se encontrar com a namorada e eu fui almoçar sozinha no restaurante do hospital......não que eu esteja somente com a síndrome da coitadinha-de-mim, não é só isso....é que é tão difícil ficar assim tão sozinha, mais triste ainda é nunca ter experienciado o que é não estar sozinha.....
Fiquei olhando ele indo embora e me perguntando: "deve haver algo de errado comigo, o que será? Por que estou sempre tão sozinha? Será que eu afasto os homens, ou não sou atraente o suficiente, ou não sou interessante o suficiente? Que fantasma esses homens! Como fico confusa, triste e perdida por causa deles e da falta deles!
Tô enfraquecendo de novo....tô com medo de ir pra casa sozinha com a minha mãe....to com medo, medo, medo.


e começa a 2a fase


Estou escrevendo debaixo do cobertor, ao lado do leito da minha mãe, para evitar que a luz do laptop atrapalhe o sono das 4 mulheres que agora roncam pacificamente.
Sim, ela finalmente teve alta do centro de recuperação e veio para o quarto, mas ela está passando tão mal, vomitando tanto, com tamanha dor, que não  tive coragem de deixá-la sozinha.
Não está sendo fácil esse início de recuperação, é extremamente difícil vê-la sofrendo assim...mas, ao mesmo tempo, tem sido uma experiência extremamente enriquecedora nos mais  variados aspectos.
Primeiro, o fato de poder e conseguir ajudar a minha mãe está fazendo com que eu tire o foco de mim mesma e essa é de fato a chave do ajudar o próximo: se colocar no lugar daquela pessoa, sem julgamento, sem pedir nada em troca. Difícil, mas com a própria mãe sofrendo tanto, acaba surgindo espontaneamente - e é tão bom poder ajudar a diminuir o sofrimento, conseguir estender a mão, sabe?
A sala de espera do centro cirúrgico foi um lugar muito marcante, eram tantas pessoas sofrendo, familiares angustiados, recém-nascidos sendo operados, pessoas com todos os tipos de doenças e com todos os tipos de medo, angústia, pavor........em resumo, todos estavam com medo de morrer ou de perder algum ente querido.
Do lado de fora do hospital, a mesma coisa: cegos, pessoas desmembradas, canceres externos (face, boca, olhos), tudo que se possa imaginar....
O que mais me surpreendeu foi que, apesar de estar ansiosa pela minha mãe e nosso drama, não consegui me conter e acabei me envolvendo em vários outros dramas: o menino deficiente que estava mal acomodado, com frio, aspirando todo o catarro acumulado que tossia - lá fui eu conversar com as enfermeiras e consegui que ele fosse levado para a sala de espera do centro cirúrgico, posto numa maca, aquecido e aspirado. A cega que, as 23h, não conseguia encontrar o caminho para o ponto de ônibus e ficava andando em círculos ao redor do jardim, ninguém fazia nada, me indignei e levei-a até o ponto de ônibus - pra depois aparecer um rapaz, que estava o tempo todo sentado e só olhando, dizendo: "vc não devia andar sozinha no campus a essa hora" ao qual eu respondi: " e a moça cega pode????" A moça de 30 anos com câncer de mama, vizinha de leito da minha mãe, não consegue erguer o braço pra tomar água; a outra com câncer no pé (que foi amputado) e no útero.....e aqui estou eu, erguendo a cabeceira do leito pra uma, dando água pra outra, ajudando minha mãe a vomitar (segurando a vasilha, a cabeça e as costas dela, pra dar suporte e maior alívio), a fazer xixi na comadre.....
A questão é que, como estamos na ala do SUS, a maioria das pessoas são do interior, gente muito simples, sem instrução e, portanto, sem "voz".
Como eu sei que aqui no Brasil não há nada que uma pessoa bem arrumada, com instrução, de fala mansa, bem-educada e com um sorriso no rosto não consiga, lá vou eu, com meu 1,80m e postura ereta, e consegui fazer o que a mãe do menino deficiente estava tentando há mais de 2 horas! 
Essas situações tem mexido muito comigo, e estou certa de que Medicina é mesmo minha escolha de vida.
Achei esse poeminha lindo, singelo e profundo como as experiencias desses últimos dias...sim, pois eu acredito que, o alívio do sofrimento, por mais pesado que seja, é um processo de paciência, desprendimento e (praqueles que conseguem) compaixão: um movimento lindo e singelo.



Sê paciente; espera
que a palavra amadureça
e se desprenda como um fruto
ao passar o vento que a mereça.