sábado, 2 de julho de 2011

e começa a 2a fase


Estou escrevendo debaixo do cobertor, ao lado do leito da minha mãe, para evitar que a luz do laptop atrapalhe o sono das 4 mulheres que agora roncam pacificamente.
Sim, ela finalmente teve alta do centro de recuperação e veio para o quarto, mas ela está passando tão mal, vomitando tanto, com tamanha dor, que não  tive coragem de deixá-la sozinha.
Não está sendo fácil esse início de recuperação, é extremamente difícil vê-la sofrendo assim...mas, ao mesmo tempo, tem sido uma experiência extremamente enriquecedora nos mais  variados aspectos.
Primeiro, o fato de poder e conseguir ajudar a minha mãe está fazendo com que eu tire o foco de mim mesma e essa é de fato a chave do ajudar o próximo: se colocar no lugar daquela pessoa, sem julgamento, sem pedir nada em troca. Difícil, mas com a própria mãe sofrendo tanto, acaba surgindo espontaneamente - e é tão bom poder ajudar a diminuir o sofrimento, conseguir estender a mão, sabe?
A sala de espera do centro cirúrgico foi um lugar muito marcante, eram tantas pessoas sofrendo, familiares angustiados, recém-nascidos sendo operados, pessoas com todos os tipos de doenças e com todos os tipos de medo, angústia, pavor........em resumo, todos estavam com medo de morrer ou de perder algum ente querido.
Do lado de fora do hospital, a mesma coisa: cegos, pessoas desmembradas, canceres externos (face, boca, olhos), tudo que se possa imaginar....
O que mais me surpreendeu foi que, apesar de estar ansiosa pela minha mãe e nosso drama, não consegui me conter e acabei me envolvendo em vários outros dramas: o menino deficiente que estava mal acomodado, com frio, aspirando todo o catarro acumulado que tossia - lá fui eu conversar com as enfermeiras e consegui que ele fosse levado para a sala de espera do centro cirúrgico, posto numa maca, aquecido e aspirado. A cega que, as 23h, não conseguia encontrar o caminho para o ponto de ônibus e ficava andando em círculos ao redor do jardim, ninguém fazia nada, me indignei e levei-a até o ponto de ônibus - pra depois aparecer um rapaz, que estava o tempo todo sentado e só olhando, dizendo: "vc não devia andar sozinha no campus a essa hora" ao qual eu respondi: " e a moça cega pode????" A moça de 30 anos com câncer de mama, vizinha de leito da minha mãe, não consegue erguer o braço pra tomar água; a outra com câncer no pé (que foi amputado) e no útero.....e aqui estou eu, erguendo a cabeceira do leito pra uma, dando água pra outra, ajudando minha mãe a vomitar (segurando a vasilha, a cabeça e as costas dela, pra dar suporte e maior alívio), a fazer xixi na comadre.....
A questão é que, como estamos na ala do SUS, a maioria das pessoas são do interior, gente muito simples, sem instrução e, portanto, sem "voz".
Como eu sei que aqui no Brasil não há nada que uma pessoa bem arrumada, com instrução, de fala mansa, bem-educada e com um sorriso no rosto não consiga, lá vou eu, com meu 1,80m e postura ereta, e consegui fazer o que a mãe do menino deficiente estava tentando há mais de 2 horas! 
Essas situações tem mexido muito comigo, e estou certa de que Medicina é mesmo minha escolha de vida.
Achei esse poeminha lindo, singelo e profundo como as experiencias desses últimos dias...sim, pois eu acredito que, o alívio do sofrimento, por mais pesado que seja, é um processo de paciência, desprendimento e (praqueles que conseguem) compaixão: um movimento lindo e singelo.



Sê paciente; espera
que a palavra amadureça
e se desprenda como um fruto
ao passar o vento que a mereça.

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