segunda-feira, 18 de julho de 2011

trecho de um livro

Li um trecho do livro "A Síndrome de Copérnico", que minha mãe estava lendo, e gostei muito dessa passagem:

"Eu existo. Você existe. Eles existem.
 Eu existo, eu que escrevo, e existe você que lê, talvez.
 Mas essas palavras não são meu eu. Não é a mim que você lê. Não se iluda: o meu eu é inacessível. E não digo isso para me vangloriar. É assim, é humano.
 Você me entende? Não. Você vê o meu interior? Menos ainda. Como também eu não vejo o seu, aqui, agora. Não tente. Continuaremos estranhos para sempre.
 O outro. Eu precisava me certificar. Procurei nos dicionários. E vi que, para eles, também é uma palavra problemática (....) 
  No dicionário de Armand Colin, temos um arremedo de consolo:
  Outro: 1.Sentido geral: o outro como eu que não é o eu, como correlativo do eu. 2. Fil.: em Rousseau: o outro designa o meu semelhante, isto é, qualquer ser que vive e que sofre, com o qual me identifico na experiência privilegiada da piedade. Em Hegel: o outro, dado irrecusável como existência social e histórica, é, numa relação intersubjetiva, constitutivo de toda consciência no seu próprio surgimento...
   Dado irrecusável...Hegel diz isso para se divertir.
   Não há solidão maior do que perante os outros.
   Essa solidão é cansativa. Só, só, só, eu estou só. Eu estou só. 'As vezes preciso dos outros. Para quê?
   O outro é um mistério e um paradoxo. Ele é, desde sempre, o genitor de todos os meus tormentos. Não se esconda. Na verdade, não é culpa sua. É assim. E, de qualquer modo, eu só existo através de você.
   Eis por que: o Homo sapiens não pode existir sozinho. É preciso um pai e uma mãe para nascer. Nós somos o produto de um outro. E essa dependência não nos abandona nunca. Ela está em toda parte. A linguagem, a cultura....tudo vem dos outros. Somos herdeiros constantes.
   E, no entanto, o outro continua a ser inacessível. Eu vejo o corpo do outro, mas nunca vejo seu espírito. Nunca vejo sua alma, sua interioridade. E a interpretação que eu faço do outro é necessariamente inexata, assim como a que você faz de mim.
   Enquanto o outro continuar a ser outro, seremos vítimas de uma eterna incomunicabilidade. Por mais que se tente.
   A invenção da linguagem é a mais bela confissão da nossa incapacidade de nos entendermos."
 

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